Agassiz Almeida: A ira do condenado

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Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

A ira. Que sentimento humano é este e de onde vem? Vem pelos saecula saeculorum, na dor dos injustiçados, nos prantos dos infortunados, na vida sem vida dos desencontrados do mundo. Vem da ira que abate tiranos e tiranias. Vem na palavra dos fortes que não se venceram mesmo combatidos por portentosas mídias mercenárias. Vem no carrilhão dos tempos e chega na consciência dos justos que jamais se perderam no oportunismo. Vem de

Demóstenes combatendo Filipe II contra a invasão de Atenas. Vem na oratória de Cícero contra Catilina, no Senado Romano: “Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?”. Vem com Rui Barbosa no Senado Federal: “Justiça não é aquela que condena cegamente, mas a que julga e absolve um injustiçado”. Vem no brado inflamado de Castro Alves: “Oh Deus, onde estás que não respondes? Há 2.000 anos te mandei meu grito”. Vem com Luiz Inácio na força libertária deste operário que se fez estadista e batizado sob o sol inclemente do Nordeste teve a estatura dos fortes, e que diante dos seus poderosos algozes no momento de ir para o cárcere, deixou estas palavras às atuais gerações e às que hão de vir: “A história julgará o delegado que me acusou, o procurador leviano e o juiz que mentiu. Podem matar uma rosa, duas, três, mas jamais impedirão a primavera”. E exclamou: “Eu sou um construtor de sonhos. Eu não sou mais um ser humano, sou uma ideia!” E lá, nos chapadões do planalto de Brasília ouvimos o ecoar de melancólicas e medíocres palavras da presidente do STF: “Ide, oh condenado, para as masmorras de Curitiba”.

Cesse o eco dos tempos e olhemos cinquenta anos à frente e ouviremos então a voz da posteridade: “De onde tu vens, oh magistrada e como te chamas”? Faces pálidas e mãos trêmulas, com um enxame de fantasmas a povoar a sua mente, ela diante do pantheon daHistória estremeceu de remorso. Paremos um pouco. Que desencontrado Brasil é este que se esfarrapa entre o ódio e a insensatez? Examinemos este grave atentado. Na noite do dia 06 de abril, por volta das 22:00 horas, no momento em que a aeronave que transportava o condenado de Caetés estava prestes a aterrissar no heliporto em Curitiba, criminosos raios de laser foram direcionados com o propósito de derrubá-la. Que inquérito para apurar esta tentativa de assassinato a Aeronáutica ou o Ministério da Segurança Pública mandaram instaurar? Um silêncio foi a resposta. O juiz da Lava Jato, tão imperioso na condenação do ex-presidente Lula, deve saber que ele está sob a sua custódia e responsabilidade. Defenda-o!

Observemos este vulto que veio dos sertões nordestinos para São Paulo, num pau de arara ao lado de seus sete irmãos e de sua mãe dona Lindu, e que hoje caminha nas páginas da História: “Eu não sou mais um ser humano, sou uma ideia”. Onde está esta ideia e em quem se materializa? Em milhões de brasileiros arrancados dos rincões da miséria e dos flagelos das secas e que encontraram o caminho da cidadania com salários dignos e as portas abertas para o saber. Esta ideia está em Nelson Mandela, na sua luta contra o apartheid racial. E no Brasil, no nordestino dos sertões de Pernambuco, Luiz Inácio, que lutou contra o apartheid social de milhões de brasileiros. Que fale o amanhã dos tempos sobre estes vultos! Que cenário de incerteza sobressalta a nação?

Despertada pelo clamor da imprensa mundial, a ONU, decerto irá se posicionar. E o que encontrará aqui, revolvendo aquele processo-crime? Um monstrengo cujo objeto do crime é um apartamento em Guarujá, do qual o condenado jamais tomou posse e nem dele é proprietário. E as provas, onde estão? Estão nas delações premiadas de psicopatas destroçados por torturas psicológicas. Estarrecida o que concluirá a ONU? Condenaram por intencionalidade e se basearam em provas por convicção. Que aberração! Escancarada esta pantomima promanada do ridículo e da insensatez, o que responderá o mundo? Com uma enorme gargalhada e ao mesmo tempo com forte indignação. Charles Chaplin, na sua genial obra, “O grande ditador”, pincelou com maestria o bufante ditador que montado no seu Olimpo berra: “Eu sou a justiça, depois de mim o dilúvio”.

Esparramadas nas suas torres de marfim, nos seus jatinhos e luxuosas mansões em Miami, as elites burras e egoístas do Brasil, instrumentalizadas nas vozes dos seus sequazes, praticaram este ato criminoso de profunda gravidade: “Joguem este lixo fora; joguem esta coisa no lixo!” Que loucura! Isto ocorreu quando a aeronave do ex-presidente decolava do aeroporto de Congonhas para Curitiba. Da cabeça do juiz da Lava-Jato eclodem estas palavras: “Aqui, nesta prisão ninguém tem privilégios, todos são iguais”. Como assim? O condenado de Caetés vai para o cárcere nos braços do povo e acompanhado por mais de cem mil pessoas; os verdadeiros corruptos são lançados no camburão da polícia. Por que caminhos tão opostos? Perguntem ao destino!

Cesse este furor carcerário que sobressalta e amesquinha a nação, desencadeado por aqueles que em nome da justiça a violam. Até um doente terminal foi lançado na prisão da Papuda. Urge que a nação reencontre o seu desenvolvimento.

Texto escrito por: Agassiz Almeida, escritor, ativista dos direitos humanos, ex-deputado federal constituinte, promotor de justiça aposentado, professor da UFPB, e autor dos livros: “500 anos do povo brasileiro” (Ed. Paz e Terra), “A república das elites” (Ed. Bertrand Brasil), “A ditadura dos generais” (Ed. Bertrand Brasil), e “O fenômeno humano” (Ed. Contexto); Em pesquisa o livro: “Por que o Brasil ainda não deu certo”.

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