CHICO SALES: País nenhum do mundo aceitaria ter um Presidente que admira e homenageia um torturador

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Por Chico Sales:

Inicialmente devo esclarecer que a presente opinião é pessoal e não se aterá à análise do partido ou dos apoios que os candidatos A ou B estão recebendo, mas única e exclusivamente aos princípios e valores que, conforme se extrai das próprias declarações do candidato objeto da presente avaliação, lhe seriam norteadores.

Até porque o que se pretende é a análise pessoal do candidato quanto a aspectos da sua personalidade, referente ao seu pensar, sentir e agir, em face da extrema responsabilidade que recairá sobre aquele que por nós for escolhido para presidir o país, sem perder de vista que o bem maior a ser preservado é a nossa ainda cambaleante democracia, conquistada com o sacrifício de muitos e que deve ser defendida, contra a barbárie, independentemente de cor partidária ou ideologia.

Também sem adentrar na discussão sobre se os tais candidatos A ou B são ou não corruptos, pois para assim ser considerado tem de haver o trânsito em julgado do processo de condenação, a exposição versará exclusivamente sobre os referidos valores e princípios que o próprio candidato fez questão de tornar público em suas repetidas declarações.

Portanto, não são coisas que disseram dele ou que dependam de interpretação ou análise de contexto, mas que foram ditas por ele mesmo, de forma direta, objetiva, sem meias palavras, em alto e bom som.

Refiro-me, assim, ao candidato Jair Bolsonaro e às suas conhecidas e reiteradas manifestações favoráveis à tortura e, por conseguinte, à ditadura, sendo o ponto culminante da sua apologia a essa horrenda forma de maltratar a pessoa humana a homenagem que prestou ao hediondo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, quando proferiu seu voto favorável ao golpe que derrubou a ex-presidente Dilma Rousseff.

Como sabemos (exceto o candidato, pois ele costuma dizer que não entende de Economia, de Saúde, etc. etc.etc, sendo certamente por essa falta total de conhecimento que tenha medo deir ao debate) a tortura é considerada crime contra a humanidade, de acordo com o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, promulgado no Brasil através do Decreto no 4.388/2002. É delito imprescritível, inafiançável, não sujeito a graça e anistia (art. 5o – XLIIIda CF), estando incursa no art. 2o – I e II da Lei no 9.455/1997, sendo equiparado a crime hediondo e vedada a concessão de indulto, é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia,demonstrando, assim, sua extrema gravidade.

Não temo em afirmar que país nenhum do mundo, minimamente civilizado, aceitaria ter um Presidente que admira e homenageia publicamente quem comandou a prática de torturas, ainda mais com resquícios de extrema crueldade (nem vou exemplificar esses resquícios, pois não merecem ser lembrados e já são do conhecimento geral). Evidentemente, homenagem só se presta quando se tem admiração pelo homenageado, pois ambas as partescompartilham os mesmos valores e princípios.

Quando se homenageia um personagem da estatura de um Mahatma Gandhi, que difundiu o princípio da não agressão como forma de fazer uma revolução sem armas, se está homenageando uma pessoa que para o mundo representa a paz entre as nações e entre os cidadãos e as cidadãs, por ter realizado o feito histórico, fartamente conhecido, de ter libertado a Índia/Paquistão do jugo do poderoso domínio inglês sem disparar um único tiro. Seus princípios e atos influenciaram pensadores ao longo do século XX, como o pastor americano Martin Luther King, cujos princípios podem ser resumidos em não violência, segundo o qual ferir outra pessoa é como atacar a si mesmo.

Entendo que, como já disse, se o nosso país fosse minimamente civilizado, não se estaria perdendo tempo com esse tipo de discussão, porquanto pessoas que negam o princípio da dignidade da pessoa humana, que constitui o princípio máximo do estado democrático de direito, seriam rejeitadas e sumariamente afastadas da vida pública. Infelizmente não é isso o que acontece, demonstrando que ainda estamos muito longe de alcançar um grau de civilidade que nos eleve à condição de protagonista, permitindo-nos interagir em pé de igualdade junto às nações desenvolvidas.

Outro momento que merece destaque entre suas declarações, foi quando saiu com essa bestialidade: o “Erro da ditadura foi torturar e não matar”, significando dizer que não bastava torturar, mas também matar. Essa lamentável declaração faz lembrar um episódio ocorrido com um tradicional político brasileiro, há muitos anos, comentando um crime de estupro seguido de morte que à época teve muita repercussão, tendo feito um infeliz comentário, creio que não com a intenção que pegou, e que lhe trouxe enormes prejuízos na sua carreira política, nos seguintes termos: “estupre, mas não mate”, cuja frase, parafraseando, ficaria assim: “torture, mas mate”.

A propósito, convém lembrar que o candidato responde a uma acusação por injúria e apologia ao estupro, por ter agredido verbalmente uma Deputada com as seguintes palavras: “Só não te estupro porque você não merece”, não se sabe se por achar que ela não reuniria atributos de beleza que lhe atraíssem. Mas essa é também uma acusação que está sub judice, sem trânsito em julgado, não merecendo, por enquanto, maiores considerações. O acima exposto já reuniria motivo bastante e mais do que suficiente para que rejeitasse de plano e peremptoriamente o voto no candidato em alusão. Entretanto, motivos ainda mais intransponíveis, para mim, se sobrepõem a esses, e que os direciono a todos os leitores, mas que fala mais de perto aos irmãos de fé em Cristo, e, de forma ainda mais particular, e exclusiva, aos irmãos católicos em face da obediência que nos é imposta às orientações doSanto Padre, o Papa Francisco, seguido que foi pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, conforme se passa a expor.

Em vídeo, o Papa Francisco assim se manifestou: “Reafirmo a firme condenação de cada forma de tortura e convido os cristãos a empenharem-se para colaborarem para a suaabolição e apoiar as vítimas e os seus familiares. Torturar as pessoas é um pecado mortal, um pecado muito grave. O Mandamento “Não Matarás” tem valor absoluto, refere-se tanto ao inocente, quanto ao culpado. Faço um apelo à consciência dos governantes a fim de que se atinja um consenso internacional pela abolição da pena de morte”.

Afinal, é o que nos ensina o Sermão da Montanha, em Mt 5, 9 – Felizes os que agem em prol da paz, eles serão chamados filhos de Deus. Ora, o que dizer do aludido candidato quando coloca uma criança no colo e fica lhe ensinando a fazer posição de tiro com as mãos e se vangloria de, aos 5 anos de idade, todos os seus filhos já terem usado arma de fogo com bala de verdade? Poder-se-ia dizer que é um pacificador ou se, muito pelo contrário, é um incentivador da violência e da matança entre seres humanos? E quando, de outra feita, no palanque da sua campanha, faz posição de tiro de metralhadora com um objeto e diz: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”, ou ainda, em mais uma oportunidade, que o Brasil vai melhorar “quando nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro” e, completando, “fazendo o trabalho que o regime militar não fez, matando uns 30 mil […]. Não deixar pra fora, não, matando. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”.

Sem qualquer dificuldade, dá pra perceber que, colocando-se em prática tais ideias, estar-se-ia rasgando o Evangelho de Jesus e, consequentemente, jogando no lixo as recomendações do Papa Francisco no sentido de que devemos ser pacificadores e que “torturar as pessoas é um pecado mortal, um pecado muito grave”. Fico nesses exemplos pra não me estender muito, mas outros poderiam ser citados. À evidencia, se ocorrer esse desastre político anunciado, estaremos passando ao mundo civilizado o vexatório atestado de povo despreparado, desprovido de princípios éticos e humanitários já assimilados além-mar, de país que perdeu o bonde da história. Basta vir manchetes e reportagens que importantes jornais de todo o mundo têm publicado a respeito do risco que corre a democracia brasileira na atual eleição. Demais disso, indaga-se, o acima referido “apelo à consciência dos governantes a fim de que se atinja um consenso internacional pela abolição da pena de morte”, formulado pelo Papa Francisco, encontraria alguma receptividade se dirigida a governante que considera que o importante é armar o povo e que a violência resolve todos os problemas? Claro que não.

A propósito, o site notícias.uol.com.br publicou, em 29/04/2018, que o Papa Francisco pediu a proibição das armas para que o mundo tenha paz e não conviva “com medo da guerra”. “Nós queremos a paz? Então, vamos banir as armas para não ter que viver no medo da guerra”, recomendou o sumo pontífice em seu perfil do Twiter, traduzido em nove idiomas. Vê-se, pois, que o Católico não pode optar por quem não cultua a pacificação nas relações humanas e sociais e/ou que concorda com a manutenção da pena de morte implícita no paganismo incrivelmente reverberado no chavão de que “bandido bom é bandido morto”. Em consonância com as recomendações papais, D. João Inácio, Bispo Diocesano de Lorena – SP, exorta: Quem vota em torturador está em pecado mortal. Não podemos apoiar certos candidatos. Por exemplo, candidatos que tem uma fala, uma pregação diametralmente oposta às evidências, aos critérios básicos, que emanam do Evangelho, nós não podemos votar neles; então votar em pessoas que conclamam a população e que divulgam a violência, p. ex., sou muito sereno em falar: votar nesses é se excluir da comunhão, e o Papa diz que pessoas que divulgam fotos de tortura, tortura é um pecado gravíssimo é um pecado mortal, então quem divulga essas imagens ou divulgam posições desses candidatos ou ainda votam neles, eu diria assim, por favor, não vai comungar, porque você está em pecado grave. Então o nosso voto deve seguir a consequência da nossa fé e conforme eu voto eu também tenho que assumir as consequências da minha escolha…

Detenho-me um pouco mais na orientação do Bispo Diocesano de Lorena – SP, sob cujaDiocese se situa a cidade de Cachoeira Paulista, onde está localizada a Comunidade Canção Nova, em face de, há mais de 15 anos, acompanhar assiduamente e admirar muito a missão evangelizadora que ali é levada a efeito, e da qual sou associado. Pois bem, há alguns dias surpreendi-me com a indicação de voto no candidato que homenageia torturador feita por um dos sacerdotes da Comunidade, o qual, no vídeo que gravou, chega a dizer que ele foi colocado nessa posição não pelos homens, mas por Deus, e ainda afirma que o candidato era da Igreja Batista e que agora “se diz” Católico.

 Evidentemente, a fala do padre não faz o menor sentido e não tem fundamento algum, mostrando ser um verdadeiro absurdo, pois a tortura é um crime terrível e é considerado um pecado gravíssimo, conforme alertaram o Papa Francisco e o próprio Bispo Diocesano de Lorena – SP, D. João Inácio. E também não mais é cabível dizer “era da Igreja Batista e agora ‘se diz’ Católico”, pois pelo que se propagou do apoio recebido há poucos dias, aquele que já fora Batista, tampouco é Católico, já foi batizado na Igreja Universal do “bispo” Edir Macedo, demonstrando ser mesmo um oportunista que quer se aproveitar das religiões para ganhar apoio e voto. Soa risível imaginar que Deus fosse capaz de fazer uma escolha tão descabida e escandalosa, optando por um simpatizante do crime de tortura e inimigo do estado democrático de direito como seu candidato a Presidente e, portanto, já o tornando eleito.

Quanto à CNBB, através de D. Reginaldo Andrietta, Bispo Diocesano de Jales – SP, assim se pronunciou: São escandalosas as posturas alienadas de muitos cristãos e as adesões a um candidato à presidência que dissemina violência, ódio, racismo, homofobia e preconceito contra mulheres e pobres. Ele utiliza falsamente as temáticas do aborto, gênero, família e ética; faz apologia à tortura, à pena de morte e ao armamentismo; e é réu por injúria e incitação ao crime de estupro. Em vídeo exibido no dia 17/10/2018, o candidato que homenageia torturador desferiu contra

CNBB graves e indecentes ofensas, tendo Dom Mauro Morelli, bispo emérito de Duque de Caxias – RJ e um dos idealizadores e percussores do programa Fome Zero, protestado contra mais essa agressão, nos seguintes termos: “O candidato Bolsonaro agrediu gravemente e de forma gratuita a Igreja Católica, taxando a CNBB de parte podre da Igreja. De sua boca jorram asneiras e impropérios, revelando um homem desequilibrado e vulgar. Se eleito acabará defenestrado em pouco tempo”, postou o religioso.

Convém lembrar neste grave momento os ensinamentos do sapiencial Sl 1,1 Feliz o homem que não toma o partido dos maus, não se detém no caminho dos pecadores e não se senta no banco dos zombadores, bem como que vitória construída a partir da propagação de mentiras (fake news) não passa de uma vitória de pirro, afinal sabemos muito bem quem é o pai da mentira (Jo 8, 44).

Em suma, prezo muito pela minha fé e pela vida verdadeira que virá depois, mais do que qualquer outra coisa deste mundo passageiro, efêmero. Portanto, primeiramente não posso ser contrário aos ensinamentos do Evangelho e, depois, à orientação da Igreja, pra não me afastar da proteção de Deus, e dessa desobediência vir a constatar mais adiante que o pior aconteceu e que colaborei para que pessoas discriminadas e/ou falsamente acusadas, ou até odiadas por serem vistas como pertencentes à dita petralhada do Acre, todos(as) filhos(as) de Deus, estejam sendo vítimas de atrocidades por parte do aparelho estatal, comandado por um Presidente que se elegera com a minha ajuda. Com certeza não correrei esse risco de conivência com esses prenunciados acontecimentos. Para finalizar, peço a Deus a graça de estar equivocado em minhas previsões, com fé e confiança na proteção anunciada nesse Salmo de louvor: Sl 33(32) 1.18-22 Amém!

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