Feira e mostra cultural reúne assentados em homenagem a Margarida Maria Alves

Apresentações de grupos culturais formados por jovens e mulheres assentados e a Primeira Feira Estadual dos Assentamentos da Reforma Agrária na Paraíba, a FeiTERRA, com produtos orgânicos produzidos em assentamentos do litoral ao sertão do estado. As atividades, que incluíram ainda uma mostra com tecnologias sociais alternativas que vêm sendo implantadas em assentamentos paraibanos, fizeram parte do último dia do evento “Margarida 30 anos de impunidade, lutas e conquistas”, uma semana que lembrou, em Alagoa Grande (PB), no Brejo, o assassinato da líder camponesa paraibana Margarida Maria Alves.

Além dos cerca de 100 feirantes que participaram da FeiTERRA, o evento contou com outros 480 agricultores de assentamentos atendidos pela Assessoria de Grupo Multidisciplinar em Tecnologia e Extensão (Agemte), entidade contratada pelo Incra/PB para prestar assistência técnica a 3.797 famílias em 66 assentamentos do Brejo e da Zona da Mata Norte paraibanos, além de 150 assentados atendidos por outras entidades ligadas ao Programa de Assessoria Técnica, Social e Ambiental à Reforma Agrária (Ates).

A Agemte, pioneira na introdução de tecnologias sociais alternativas em Unidades Demonstrativas Pedagógicas da Agricultura Familiar (UDPAFs) nos assentamentos paraibanos, montou uma geodésica construída com canos de PVC na praça da Igreja Matriz, no Centro de Alagoa Grande, onde aconteceu o evento. A entidade também apresentou uma placa solar e uma geladeira de fabricação artesanal, além de carneiro hidráulico, uma bomba d’água que não usa energia elétrica, gasolina ou diesel.

FeiTERRA

Uma feira diversificada, com produtos orgânicos de assentamentos de todas as regiões da Paraíba. Assim foi a FeiTERRA, que ofereceu mel de abelha, doces e artesanato produzidos em assentamentos do sertão; comidas típicas, ovos de galinha de capoeira, macaxeira, batata-doce, inhame, coco verde, hortaliças, frutas e legumes produzidos nas regiões do Brejo, Curimataú, Borborema, Zonas da Mata Norte e Sul.

A feira foi promovida pelo Incra/PB e executada pelo Instituto de Assessoria a Cidadania e ao Desenvolvimento Sustentável (IDS), que atua como articuladora entre a Superintendência Regional do Incra e as equipes técnicas de Ates.

Para José Fernando da Silva, 50 anos, do Assentamento Boa Vista, em Sapé, no Brejo, mais do que uma oportunidade de ganhar dinheiro, a feira serviu para conquistar novos clientes. Fornecedor de alimentos para o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e com uma banca na feira agroecológica realizada às sextas-feiras no Campus da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em João Pessoa, Seu José levou para Alagoa Grande macaxeira, inhame, batata-doce, cenoura, couve, alface crespa e americana, mamão quiabo e coentro.

“A vida do assentado hoje tá muito boa, só tá ruim para quem não quer trabalhar”, afirmou Seu José, acrescentando que as vendas para o PAA e para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) vêm mudando a vida dos assentados. “É um dinheiro seguro”.

As vendas foram boas, na opinião de Mariso Domingos dos Santos, 37 anos, do Assentamento Quitéria, em Alagoa Grande. A banca era uma mostra da diversificada produção do assentamento, um dos primeiros a serem criados na Paraíba.

“Continuamos aumentando a produção de banana iniciada pelos nossos pais. São mais de cinco variedades”, disse o assentado, que comercializa a produção, que inclui abacaxi, mamão, coco verde, feijão verde, alface, couve, batata-doce e quiabo, com outras famílias do assentamento na feira livre do município, às quartas-feiras e sábados, e na Feira do Produtor, às sextas-feiras.

Uma banca reuniu a produção dos assentamentos do Sertão: doces de goiaba e banana produzidos na “UDPAF Beneficiamento de Frutas” implantada pela entidade de Ates Central das Associações dos Assentamentos do Alto Sertão Paraibano (Caaasp) no Assentamento Veneza I, em Aparecida; peças em crochê do Assentamento Santa Mônica, em Pombal; bonecas de pano, batedores de porta e toalhas bordadas do Assentamento Santo Antônio, em Cajazeiras; panos de prato e conjuntos de toalhas do Assentamento Paissandu, em São Domingos; peças em fuxico do Assentamento Jerimum, em Lastro; bolos do Assentamento Valdeci Santiago, em Cajazeiras; e mel de abelha da “UDPAF Ponto de Coleta de Mel” implantada pela Caaasp no Assentamento Frei Damião I, em Cajazeiras.

Mostra cultural

A animação do evento ficou por conta da Mostra Cultural D’Agemte e do Seminário de Cultura Regional para Jovens, promovido pelas equipes da Agemte. Uma mística com cortejo e leitura de poemas abriu as apresentações de música, teatro, dança e outras expressões artísticas populares e camponesas, como a ciranda, o xaxado e a quadrilha, que envolveram oito grupos formados por jovens e mulheres assentados.

Um coral com jovens do Assentamento Santa Lúcia, em Araçagi, apresentou sua versão para a música “Veja Margarida”, de Vital Farias. Um grupo do Assentamento Margarida Maria Alves I, em Juarez Távora, assistido pela Agemte, apresentou uma ciranda em homenagem à líder camponesa, assim como um grupo do Assentamento Dona Antônia, no Conde, assistido pela Consultoria e Planejamento de Projetos Agropecuários (Consplan).

Apoios

O evento “Margarida 30 anos de impunidade, lutas e conquistas” foi promovido pelo Instituto Penha e Margarida (Ipema) e pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, com apoio do Incra/PB, do IDS, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), da Via Campesina, da Prefeitura de Alagoa Grande, da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Paraíba (Fetag-PB) e ainda da Agemte e da Cooperativa de Trabalho Múltiplo de Apoio às Organizações de Autopromoção (Coonap), entidades de Ates contratadas pelo Incra.

Margarida Maria Alves

A trabalhadora rural paraibana Margarida Maria Alves foi assassinada em 12 de agosto de 1983. Ela ocupava, desde 1973, a presidência do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, que havia movido mais de 70 ações trabalhistas de trabalhadores rurais contra as usinas da região. Margarida foi uma das mulheres pioneiras nas lutas pelos direitos dos trabalhadores rurais no Brasil. Após sua morte tornou-se um símbolo político, representativo das mulheres trabalhadoras rurais, que deram seu nome ao evento mais emblemático que realizam: a Marcha das Margaridas – uma mobilização nacional que reúne em Brasília milhares de mulheres trabalhadoras rurais no dia 12 de agosto.

ASCOM/INCRA

 

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